A Teia Vital

nov 5 • Sheyla Guedes, Textos • 1377 Views • Nenhum comentário em A Teia Vital

Houve um tempo em que eu me contentava com frutas cristalizadas em compoteiras de vidro; eu não sabia sobre as cores vivas e o perfume de um pomar em flor.

Aí eu resolvi partir num barco com uma única vela branca.

Talvez… eu quisesse saborear a impermanência da vida. Na verdade, é tudo tão incerto.

Éramos seis. E além do nosso barco, a imensidão azul daquele céu e daquele mar.

O dia estava lindo, lindo… Mas isso eu só soube depois.

A nossa história começou com uma brisa… acariciando as nossas faces, assanhando os nossos cabelos… E foi ela, essa brisa, que criou uma onda de possibilidades entre nós.

Depois… veio a ventania… intensa, deslumbrante, a presença viva dos deuses…. E o nosso mastro se quebrou ao meio e a nossa vela se esvaiu no mar, como um fantasma.

Agora, nosso barco não tinha mais uma vela branca… E o céu e o mar não eram mais azuis, não eram assim tão óbvios que pudéssemos fugir para além do horizonte.

Tudo acontecia tão rápido… Alguém gritava: “Segurem as mãos uns dos outros… e mantenham a calma, é só uma tormenta…. vai passar, vai passar…”

E essa pessoa repetia e repetia essa mensagem com tanta certeza, que nós nem lembrávamos que não tínhamos mais uma vela branca…

Aí veio a calmaria junto com a noite.

Ainda estávamos de mãos dadas, mas não havia mais a tempestade…. somente um céu estrelado e uma imensa lua azul.

Ficamos ali, à deriva, muito próximos, contando sobre o que se passara dentro de nós com aquela experiência, nossos medos, nossas esperanças … Ah! como estávamos presentes e vivos, e como passávamos calor através das nossa mãos!

Então a mesma pessoa que acalmara nossos corações durante a tormenta, disse-nos: “Somos seis e o único objeto que nos restou foi este novelo-de-lã.”

Lá estava o novelo, branco, branquinho como chumaço de algodão.

Sem vela, sem leme, sem remo… Éramos seis pessoas e um novelo-de-lã.

Vocês devem estar se perguntando como nos salvamos.

Eu vou contar para vocês.

Um de nós – não lembro se a mulher de olhos graúdos ou o homem de terno cinza – acreditou tanto naquele novelo, tanto… que começou a cantarolar uma melodia nascida ali, naquele oceano prateado por uma imensa lua azul…

Daí todos nós cantarolávamos como um instrumento de mil vozes.

E foi essa música que chamou os outros barcos…

Salvador, 27 de julho de 1999

Sheyla Guedes

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