A Teia Vital
Houve um tempo em que eu me contentava com frutas cristalizadas em compoteiras de vidro; eu não sabia sobre as cores vivas e o perfume de um pomar em flor.
Aí eu resolvi partir num barco com uma única vela branca.
Talvez… eu quisesse saborear a impermanência da vida. Na verdade, é tudo tão incerto.
Éramos seis. E além do nosso barco, a imensidão azul daquele céu e daquele mar.
O dia estava lindo, lindo… Mas isso eu só soube depois.
A nossa história começou com uma brisa… acariciando as nossas faces, assanhando os nossos cabelos… E foi ela, essa brisa, que criou uma onda de possibilidades entre nós.
Depois… veio a ventania… intensa, deslumbrante, a presença viva dos deuses…. E o nosso mastro se quebrou ao meio e a nossa vela se esvaiu no mar, como um fantasma.
Agora, nosso barco não tinha mais uma vela branca… E o céu e o mar não eram mais azuis, não eram assim tão óbvios que pudéssemos fugir para além do horizonte.
Tudo acontecia tão rápido… Alguém gritava: “Segurem as mãos uns dos outros… e mantenham a calma, é só uma tormenta…. vai passar, vai passar…”
E essa pessoa repetia e repetia essa mensagem com tanta certeza, que nós nem lembrávamos que não tínhamos mais uma vela branca…
Aí veio a calmaria junto com a noite.
Ainda estávamos de mãos dadas, mas não havia mais a tempestade…. somente um céu estrelado e uma imensa lua azul.
Ficamos ali, à deriva, muito próximos, contando sobre o que se passara dentro de nós com aquela experiência, nossos medos, nossas esperanças … Ah! como estávamos presentes e vivos, e como passávamos calor através das nossa mãos!
Então a mesma pessoa que acalmara nossos corações durante a tormenta, disse-nos: “Somos seis e o único objeto que nos restou foi este novelo-de-lã.”
Lá estava o novelo, branco, branquinho como chumaço de algodão.
Sem vela, sem leme, sem remo… Éramos seis pessoas e um novelo-de-lã.
Vocês devem estar se perguntando como nos salvamos.
Eu vou contar para vocês.
Um de nós – não lembro se a mulher de olhos graúdos ou o homem de terno cinza – acreditou tanto naquele novelo, tanto… que começou a cantarolar uma melodia nascida ali, naquele oceano prateado por uma imensa lua azul…
Daí todos nós cantarolávamos como um instrumento de mil vozes.
E foi essa música que chamou os outros barcos…
Salvador, 27 de julho de 1999
Sheyla Guedes





